O pragmatismo francês.
Mauro Moreira.
Nos anos 70, com a eclosão da primeira crise do petróleo, ficava claro para o mundo que era necessário buscar novas fontes de energia. A energia nuclear acenava como uma solução para os países que não contavam com abundância hídrica para construção de grandes hidrelétricas ou grandes áreas agricultáveis para biomassa. As usinas termonucleares mostravam ter um baixo impacto ambiental e logístico em relação as termoelétricas a carvão, e requeriam áreas muito pequenas em relação a outras fontes energéticas, como as hidrelétricas e as termoelétricas que queimam biomassa.
Na figura abaixo, um modelo de usina nuclear dos anos 70, baseado em reatores do tipo PWR.

Mas vieram os acidentes nucleares de Three Mile Island, na Pensilvânia EUA em 1979, e alguns anos após, Chernobyl na Ucrânia em 1986.

O mundo então foi varrido por uma histeria anti-nuclear que levou à paralisação de quase todos os projetos nucleares na Europa e EUA, e em alguns casos, a desativação pura e simples de usinas nucleares. Era a época romântica dos movimentos ecológicos mais radicais, e as cenas de piquetes anti-nucleares se multiplicavam nos telejornais da Europa, com grupos ativistas tentando bloquear o acesso de caminhões, trens ou navios carregados de materiais radioativos.
Faltava a época ambiente para um debate sóbrio sobre o que realmente provocou os acidentes. Mas hoje se sabe que os acidentes foram muito semelhantes, que houve falha de procedimento de segurança, e que em ambos os casos estavam sendo feitos testes para os quais os reatores não estavam preparados.
A França, porém, não perdeu o foco. Estavam ainda frescas as lembranças na memória do povo francês, os racionamentos de energia e combustível, tanto no pós-guerra, quanto nos anos 50, durante o conflito com o Egito em torno do Canal de Sues. Além disso, com a nacionalização das reservas de petróleo da Argélia nos anos 60, estava definitivamente claro para os franceses que o petróleo e gás da África e Oriente Médio eram politicamente instáveis demais para as pretenções francesas de segurança energética.
O Estado francês continuou investindo no sonho nuclear dentro da sua “Política de Segurança Energética”, certo de que essa era a solução viável para pôr fim a dependência do país em relação ao petróleo, elemento essencial na produção de energia, nos transportes e na economia como um todo.
Hoje, passadas duas décadas do acidente de Chernobyl, a França está na vanguarda da era nuclear e projeta os reatores nucleares mais modernos, eficientes e seguros do mundo. O EPR-1600, geração mais avançada de projetos franceses, produz a energia elétrica mais barata entre os novos projetos de reatores nucleares existentes hoje.
Definido como o reator nuclear padrão a ser adotado na Europa, é provido de “segurança passiva”, onde sistemas redundantes de segurança corrigem erros de procedimento.
A França tem 76% de sua energia elétrica proveniente de suas 59 usinas termonucleares e ainda fatura E$2,9 bilhões por ano exportando energia elétrica a outros paises da Europa.
É certo que nem tudo na história nuclear francesa é virtude, afinal, sempre existe o imponderável, e ele finalmente se revelou na opção por colocar as usinas próximas de rios ao invés de próximas ao mar.
As usinas nucleares necessitam de grandes quantidades de água para o resfriamento dos reatores e por isso são construídas preferencialmente próximas de rios ou do mar. A opção francesa foi distribuir pelo interior do país 56 das suas 59 usinas nucleares no sentido de baratear os custos de logística e transmissão, diminuindo ainda mais o preço final da energia elétrica. Assim, a usina recebe água fria do rio e devolve água quente, a princípio, sem maiores problemas.
O risco nesse caso está numa estiagem que diminua consideravelmente o nível dos rios, fazendo com que a água quente que retorna ao rio, afete sua fauna e a flora. Ou ainda, no caso da estiagem diminuir o fluxo de água a ponto de não ser possível o resfriamento seguro do reator fazendo com que a usina tenha que ser desligada.
Este risco se mostrou possível no verão de 2003, quando uma anormal e prolongada onda de calor e seca diminuiu perigosamente o nível dos rios.
Estes riscos, embora remotos, simplesmente não existiriam se as usinas estivessem localizadas próximas ao mar. É o caso das usinas nucleares brasileiras, estrategicamente construídas entre os dois maiores centros consumidores de energia do Brasil, SP e RJ, mas também situada próximas ao mar, em Angra dos Reis-RJ.
Mas, apesar do imponderável, o programa nuclear francês segue firme.
Na Alemanha a política de “abandono programado da energia nuclear”, muito influenciada pela força dos movimentos ecológicos no parlamento alemão, se mostrou inócua. A Alemanha passou a ter uma dependência cada vez maior, das termoelétricas a carvão, e como solução, passou a importar energia elétrica da França, que é justamente de origem nuclear. Hoje a Alemanha tem dificuldades em se adequar ao Protocolo de Kyoto e por isso está rediscutindo seus dogmas em relação à energia nuclear.
A segurança energética alcançada pela França com suas usinas nucleares propiciou ao país investir na solução de um outro problema que assombra o mundo com o fim do petróleo, os meios de transporte.
Os trens, metrôs e bondes elétricos, nesse sentido, passaram a ser a melhor opção de transporte, sobre tudo, com o uso de tecnologias mais modernas. O melhor exemplo disso foi o advento do TGV, um trem de altíssimo desempenho desenvolvido pela França que hoje já abrange mais de 200 destinos na Europa cortando a paisagem a mais de 320 km/h e capaz de transportar até 500 passageiros.
Em testes sem passageiros, o TGV chegou a estabelecer a incrível marca de 580 km/h. Mas a velocidade de 320 km/h ainda é tida como um limite razoável de segurança para se transitar com tantas pessoas a bordo. 
Uma passagem de TGV de Paris a Marselha custa E$22,00 ou algo como R$60,00 para uma distância percorrida de quase 800 km. Isto é 4 vezes mais barato que qualquer passagem econômica de avião, 4 vezes mais rápido que qualquer ônibus rodoviário.
Outra iniciativa bem sucedida é o VLT, um bonde elétrico moderno e sofisticado que vem desafogando o trânsito nas cidades da Europa e diminuindo os níveis de poluição sonora e do ar. Há lugares nos Alpes onde só é permitido transitar com o VLT.
Assim como num metrô, o VLT é gerenciado por uma central de controle e operação, que coordena todas as instalações e monitoramentos dos serviços. 
Esse centro de comando programa as funções de cada unidade do VLT, e recebe em tempo real, os sinais de interrupções ou desvios nos trajetos. As informações são transmitidas por indução, através dos pontos de tráfego sincronizado da rota do veículo, e os passageiros são comunicados a cada momento o horário e o local em que se encontra o VLT.
Assim como o reator nuclear EPR-1600 e o trem de alto desempenho TGV, o bonde VLT também é um produto que já faz parte da paisagem européia e da pauta de exportações francesas.
Já para os países importadores, que no passado compraram barato o apocalíptico discurso anti-nuclear, fica a certeza de que agora, além de comprar energia elétrica, bons produtos e soluções, estão levando pra casa de brinde, um pouco do pragmatismo francês.
Texto atualizado em 18 de março de 2008


