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Imagens e Conjecturas

  Por Mauro Moreira.
  Após a 2ª grande guerra as duas potências emergentes do conflito, EUA e União Soviética, tiraram várias lições táticas e estratégicas, sobretudo no embate na Europa.
  Uma dessas questões dizia respeito às análises das vulnerabilidades logísticas do front europeu. Os analistas entenderam que as linhas de transportes na Europa, na sua ampla maioria formada por ferrovias, embora economicamente mais viáveis, se mostraram extremamente vulneráveis às ações militares em comparação às rodovias. Uma rodovia bombardeada podia ser posta novamente em funcionamento em algumas horas com um simples desvio de terra nos locais afetados, enquanto uma ferrovia podia levar semanas.
  Com base nessa percepção os EUA paulatinamente abandonaram o seu transporte ferroviário durante a guerra fria e investiram numa ampla malha de transporte rodoviário. Já a União Soviética e os países do pacto de Varsóvia foram mais além, sequer investiram em rodovias, porque a falta de acesso retardaria o avanço da logística inimiga em seu território.
  A solução soviética para a falta de uma ampla malha pavimentada agravada por um clima adverso foi equacionada em muitos casos através de veículos “fora de estrada”. Um dos símbolos dessa cultura viária foram os caminhões da fábrica tcheca Tatra.
  Presente em 4 continentes (menos nas Américas) o caminhão Tatra é considerado por muitos até hoje como o melhor caminhão “fora de estrada” do mundo, muito graças ao seu revolucionário conjunto chassis-suspensão-transmissão que sumariamente eliminou os problemas de torção nas longarinas sofridos pelos caminhões nos terrenos mais irregulares.
  O Brasil teve grande influência da doutrina e do pensamento militar americano, uma vez que nossas Forças foram treinadas e equipadas pelos americanos, e lutaram sob a liderança deles na 2ªgrande guerra.
  Terminado o conflito, essa influência perdurou durante a guerra fria e foi marcante no desenvolvimento da malha viária brasileira após o golpe militar de 1964. Durante os 20 anos do período militar houve um grande incremento de rodovias no país e um contínuo abandono da malha ferroviária.
  Porém com a saída dos militares do poder em 1984, houve paralelamente a isso, uma profunda crise de liquidez externa sobre o Brasil, e o país viu seus recursos sendo drenados para solucionar questões eminentemente financeiras. Da mesma forma, o olhar estratégico dos governos militares sobre a economia foi sendo substituido por um olhar financista de curto prazo.
  O resultado dessa mudança se refletiu no sucateamento da infraestrutura do país nos últimos 20 anos, incluindo aí a malha viária.
  Com o atual governo (Lula) o país viu finalmente seus problemas financeiros sendo equacionados e o pensamento estratégico sobre a economia sendo retomado com o lançamento do PAC - Plano de Aceleração do Crescimento, um amplo conjunto de obras de infraestrutura e ações de governo que visa dar sustentabilidade a um crescimento mais acentuado do Brasil e competitividade às exportações brasileiras eliminando os chamados “gargalos” de infraestrutura, entre eles, os da malha viária brasileira.
  Porém, o chamado “gap”(do inglês - lacuna - termo comumente usado nos noticiários de economia) entre o início e o fim do PAC pode ser grande, e significar uma perda de oportunidades nos mercados internacionais, sobretudo, na agroindustria e na produção de biocombustíveis.
  O Brasil tem hoje, independente das áreas de floresta, pantanal e mananciais de cerrado, cerca de 90 milhões de hectares em terras agricultáveis espalhadas pelo país. São fazendas pontilhadas por todo território nacional cuja a produtividade se encontra aquém dos seus potenciais, muito em função da dificuldade de escoamento de uma grande produção, devido a precariedade ou ausência de uma malha viária eficiente.
  Nesse caso, a “solução soviética” poderia ser uma saida “tampão” para que o Brasil não perdesse o bonde da história, caso o Brasil tivesse uma grande frota de caminhões “fora de estrada”como os Tatra.
  Outro ganho igualmente interessante que uma plataforma como o Tatra daria ao Brasil seria no combate a incêndios florestais ou áreas rurais, onde o acesso por terra hoje se torna inviável em decorrência da incapacidade dos meios disponíveis.
  E por fim, uma fabricação nacional de um meio como os Tatra, daria ao Exército Brasileiro uma opção de adquirir aqui no Brasil um caminhão mais capaz, uma vez que recentemente optou por caminhões VW 4×4 que pouco empolgam nessa area.
  A linha Tatra é formada por caminhões 6×6, 8×8, 10×10 e 12×12, com os modelos 10×10 e 12×12 tendo eixos direcionais na frente e atrás. Pelo menos até o modelo 10×10 os Tatra ainda tem tamanho e peso compatíveis para serem transportados por via aérea pelos aviões Hercules C-130 da Força Aérea Brasileira, o que ampliaria a capacidade de atuação desse meio nas FFAA - Forças Armadas Brasileiras.
  Mas, como uma imagem fala mais que mil palavras, cesso aqui minhas conjecturas e deixo com vocês algumas cenas contundentes.

 

maio 7th, 2008 Posted by Mauro Moreira | Economia, Política, Tecnologia, governo, meio ambiente, militar | no comments

A mídia, a história e seus vencedores

   Por Mauro Moreira 

   Responda rápido: O primeiro invento humano a chegar ao espaço foi mesmo o Sputnik ? E o primeiro invento humano a chegar à lua, foi mesmo o modulo lunar da Apollo-11 ?  

   Qualquer leitor da grande mídia não teria dúvida em responder afirmativamente a essas questões, porém na história há que se ter cuidado ao distinguir os fatos e a seletividade das versões. Os apelos dessa memória seletiva pululam aqui e ali pela grande mídia.  

   Recentemente, em 4 de outubro, isso se repetiu mais uma vez com a extensiva cobertura em torno do cinqüentenário do lançamento do Sputnik. Não faltaram aqueles que atribuíram mais uma vez ao evento o suposto pioneirismo de ter inaugurado a era espacial, ou seja, o 1º objeto produzido pelo homem a alcançar o espaço sideral.  

   Mas, a bem da verdade, um invento humano inaugurou a era espacial muito antes do Sputnik, fato que a grande mídia prefere manter no limbo da história, assim como outros tantos.  

   Era 3 de outubro de 1942, exatos 15 anos antes do lançamento do Sputnik, quando da base de Peenemünde, Alemanha, um foguete A-4 (Aggregat-4) produzido pela equipe do cientista Wernher Magnus Maximilliam von Braun, subia vigorosamente a 93km de altitude, ultrapassando os 80km da atmosfera, ganhando pela primeira vez o espaço sideral.  

   Após o êxito do teste, o A-4 foi então rebatizado por Hitler de Vergeltung Waffe-2, ou V-2, em alusão às chamadas “bombas voadoras” V-1, ou Vergeltung Waffe-1 (Arma de Revanche-1), que a muito já levavam pânico as cidades inglesas.  

   Carregado de explosivos, o A-4 ou V-2, foi extensamente produzido e utilizado como míssil balístico contra os ingleses. Aliás, o primeiro míssil balístico da história.  

   Com a queda do 3ºreich em 1944 os aliados prontamente dividiram os espólios de guerra. Grande parte do conhecimento científico e tecnológico da Alemanha dos anos 40, assim como seus próprios cientistas, foram levados aos países vencedores.  

   Wernher von Braun, passou para a história finalmente como o cientista que, anos depois nos EUA, liderou o projeto Apollo juntamente com uma equipe que contava com uma centena de cientistas igualmente alemães, e que culminou com a chegada do homem a lua.  

   O incrível feito de Wernher vom Braun desta vez foi continuamente utilizado durante a guerra fria para relegar ao esquecimento no ocidente um outro fato, de que 10 anos antes do modulo lunar da Apollo-11 tocar a lua, a sonda espacial russa Lunik-II já havia feito as primeiras fotografias da face oculta da lua antes de atingir o solo lunar em 13 de setembro de 1959, tornando-se assim o primeiro invento humano a chegar a lua.  

   Já o projeto do A-4, ou V-2, passou para a história apenas como uma arma terrível e destruidora, despojada que foi do pioneirismo de seu legado científico e tecnológico.  

   Diria George Santayana (1863-1952): “Aquele que rejeita a história está sujeito a repeti-la”. Embora forjada em contexto diverso, a frase do filósofo não poderia ser mais pontual. Hoje, num mundo pós tudo, e passados mais de 60 anos do holocausto, é cada vez mais recorrente o esforço da grande mídia em relembrar a tragédia das vitimas do nazismo tanto quanto em apagar da memória suas realizações. Como se deixar as futuras gerações uma compreensão maniqueísta do período nazista fosse por si só garantidora de que a história nunca mais se repetirá da mesma maneira.

Acima, uma rara imagem colorida dos preparativos para mais um teste do A-4.

Abaixo, à esquerda, a silhueta sinistra de um lançamento de uma V-1 em direção à cidades inglesas. A direita, o empuxo vigoroso dos motores movidos a etanol, lançam mais um A-4 aos céus.

outubro 25th, 2007 Posted by Mauro Moreira | Ciência, Cultura, Política, Tecnologia, militar | no comments